Conversa entre duas “marinheiras”
Especial dia das Mães: Entrevista com Heloisa Schurmann
Conversa entre duas “marinheiras”
Todo mundo sabe que vivi no mar por um longo tempo. Meu primeiro embarque foi em 1997 e meu último em 2008. Claro que voltava em terra por um ou dois meses e lá estava eu novamente no mar. Sou apaixonada pelo mar e não escondo minha adoração pela família Schurmann e toda sua história, viagens e aventuras e me senti honrada em entrevistar a Heloisa, uma mãe que há mais de 30 anos, surpreendeu parentes, amigos e sociedade por romper padrões para criar os filhos em alto-mar e mais honrada ainda em poder compartilhar com vocês algumas perguntas que para mim são particularmente especiais por conta dessa minha vivência no mar e dando voltas pelo mundo.
Nós da HubMe preparamos esse Especial Dia das Mães
Vários pontos de vistas com perguntas super diferentes e vale muito a pena passar nos outros sites para ler tudo!!
Patrícia Cerqueira – Comida Boa Muda Tudo
Milene Massucato – Diiirce
Beatriz Zogaib – Mãe da Cabeça aos Pés
Helena Sordili – Eu,ele e as crianças


Com vocês Heloisa, a matriarca da família, lembrando que esse é o primeiro post com algumas perguntas e amanhã uma história emocionante que eles compartilharam comigo.
Materniarte – Um assunto que me deixa curiosa (como professora e Arte educadora) é como alfabetizar as crianças a bordo? A cultura e a história e toda a experiência vivida, ao meu ver, é a melhor escola do mundo.
– Como foi resolvida essa questão da educação das crianças? O mundo é mesmo a melhor escola para uma pessoa?
Heloísa – Não diria que uma coisa invalida a outra, mas sim que complementam e potencializam a formação de uma pessoa. Há 32 anos, quando decidimos realizar nosso sonho, não achávamos que aquela longa viagem substituiria à educação, digamos, “formal”. Por isso, buscamos por soluções para a educação dos meninos.
Depois de muitas pesquisas, encontramos o método de educação por correspondência de uma escola americana com mais de 100 anos de experiência. Ele seria a base formal de uma metodologia que ganhou nosso toque pessoal. Eu, professora, associei a didática do método à disciplina inserida a bordo. Os meninos tinham uma rotina de estudos e aulas no veleiro. E, ao mesmo tempo, um complemento incrível: o mundo se revelando diante deles, apresentando suas características distintas e sua riqueza geográfica, cultural etc.
Em alguns países (por exemplo, Venezuela, Tonga e Nova Zelândia), eles frequentaram a escola por curtos períodos e logo se adptaram aos costumes locais. Em Tonga eles usaram uma espécie de saia (lava lava) que era o uniforme local.
No caso da expedição seguinte, tinha apenas uma aluna. Nossa caçulinha adorável Kat. Assim como os meninos, ela tinha uma curiosidade em descobrir o mundo. Mas, na fase dela, a internet já era uma realidade. Limitada, mas real. Uma ferramenta capaz de auxiliar positivamente o aprendizado.
Como professora, ambas as experiências foram incríveis. Primeiro, apenas três alunos. Depois, uma aluna, que tinha uma professora só para ela (rs). O aproveitamento e o aprendizado se tornaram personalizados e os resultados foram ótimos.
Materniarte – Nesses 10 anos que vivi no mar já enfrentei chuvas, tempestades e uma onda enorme que quase virou meu navio em outubro saindo de Porto em direção à Espanha no mar Atlântico.
– Tem alguma história assim que gostaria de relatar (tempestades, ondas e outros momentos tensos causados por manifestações da natureza)?
Heloísa – Oi, Adriana! Que bacana saber das suas aventuras a bordo! Caramba, hein. Que susto esse em Porto, não? Olha, no nosso caso, o pior momento que enfrentamos foi uma tempestade na costa da Nova Zelândia, na nossa primeira viagem, quando enfrentamos uma baixa pressão, com ventos ciclônicos de 135Km/h e ondas de 10 metros de altura. Nesta tempestade, perdemos os dois mastros e ficamos no mar por 11 dias até chegar de volta ao porto de Auckland. Como você deve saber, enfrentar tempestades, furacão ou ciclone é sempre um momento extremamente delicado. Por isso, serenidade é fundamental para enfrentar qualquer fenômeno natural, certo? É preciso ter calma para calcular os riscos, tentar prever o imprevisto, organizar a tripulação, preparar a embarcação e enfrentar a situação com a certeza de que vai dar certo. Gostamos também de destacar sempre que o respeito pela natureza e suas manifestações mais intensas é de extrema importância. Ser arrogante, achando que nós, seres humanos, e nossas invenções são superiores a tudo pode se revelar um erro fatal.
Materniarte – Em uma das viagens onde saímos da África e depois de 12 horas de viagem encontramos um barco minúsculo cheio de refugiados com fome e sede. Meu comandante esperou a guarda costeira por mais de 10 horas e arriscou a pele. Ele dizia que não poderia deixar esses seres humanos nessa situação. Levou a bordo mais de 50 pessoas desconhecidas, deu banho, água e comida e levou de volta para África. Arriscar a pele pois existem os piratas (sim já passei também por algo semelhante, mas só susto).
– Tem alguma história assim, envolvendo piratas e/ou refugiados?
Heloísa- Que situação delicada, hein. Em 32 anos de navegação, não nos deparamos com refugiados em situação de perigo e precisando de socorro. Já até encontramos pessoas que pedem para ir embora com a gente para descobrir o mundo, mas longe de ser uma questão extrema como essa.
Na ilha de Apataki, por exemplo, David e Wilhelm fizeram amizade com um jovem nativo de 16 anos, Angelo Teamo, que os levava para pescar e jogar volei com as amigas e nos presenteava com pão de coco. Nos 15 dias que passamos na ilha, ele só não aparecia no cais apenas quando tinha que trabalhar com o pai na fazenda de coco.
No dia que partimos de Apataki, quase todos os amigos dos meninos e os nossos estavam lá presentes. Nos colocaram colares de flores nos pescoço, eram muitos abraços e fizemos promessa de que um dia voltaríamos. Angelo não veio se despedir dos meninos, que ficaram um pouco desapontados.
Zarpamos rumo à Raiatea no fim da tarde. Sem nenhum vento, navegávamos impulsionados pelo motor. Duas horas depois, de repente, o motor começou a acelerar sozinho e a fazer um barulho diferente. Estávamos no meio de atóis, um lugar perigoso para ficar sem motor. Vilfredo foi verificar na sala de máquinas e voltou segurando a causa do estranho ruído: coberto de óleo, suado e assustado, ali estava Angelo, o amigo de nossos filhos.
Surpresos, lhe perguntamos porque havia se escondido no motor. Ele disse que queria seguir viagem conosco, conhecer o mundo. “ Por favor, capitão, não me jogue aos tubarões”, implorava o clandestino, que se escondera no barco naquela manhã, enquanto visitávamos uma fazenda de pérolas negras.
Pelo rádio, Vilfredo avisou os pais de Angelo que ele estava bem e que iria até Bora-Bora conosco. De lá, voltaria num barco de pesca que estava indo para sua ilha. Eu pensava na ironia da situação. Angelo querendo partir e nós querendo ficar, se possível, para sempre naquele paraíso.
Existem também outras situações que, orgulhosamente, conseguimos ajudar a um grupo maior com nossa solidariedade. Recentemente, pela Expedição Oriente, por exemplo, visitamos uma comunidade isolada no Pacífico. Eles tinham duas fontes de água: o mar e a chuva. Com a escassez da chuva, estavam praticamente sem estoque de água doce. Como temos um dessalinizador a bordo, conseguimos ajudar no abastecimento. Um ato simples, feito com carinho, que nos aproximou ainda mais de pessoas tão especiais e queridas.
A pirataria ainda é um risco sério, mas a tecnologia e outros recursos vêm auxiliando a diminuir consideravelmente a vulnerabilidade de nós, navegadores. Ainda bem, pois é tenso quando nos deparamos com esse tipo de situação. Na nossa primeira viagem, na calada da noite, percebemos a tempo a movimentação suspeita de uma embarcação vindo em nossa direção. Conseguimos ser rápidos o suficiente para escapar daquele possível ataque pirata. Na ficção, pode até ser divertido. Mas, na vida real, não tem graça alguma.
Amanhã tem mais…..uma história linda e emocionante….segurem os lenços!!!


Caso você ainda não conheça a Família Schurmann, conheça a história deles e já aviso…..a Expedição Oriente, está emocionante:
No Facebook: https://www.facebook.com/familia.schurmann
Site da Expedição Oriente: http://www.expedicaooriente.com.br/
#MaeSchurmannnaHubMe #ABordodaMaternidade #Hubme #diadasMães


Louca ou corajosa? - Eu (Lele), ele e as crianças
maio 6, 2016 @ 1:53 pm
[…] Adriana Engelmeyer – Materniarte […]
maio 6, 2016 @ 2:10 pm
Que linda ne?
Eu amei a conversa que ela estabeleceu com todas nós… uma beleza de raciocínio, lindas palavrras e muita generosidade
beijos
Lele
Heloísa Schurmann mãe: ela vai te inspirar!!!
maio 6, 2016 @ 4:40 pm
[…] de Helóisa (Comida Boa Muda Tudo), “Um mar de emoções” (Diiirce), e “Conversa entre duas marinheiras” […]
maio 6, 2016 @ 7:07 pm
Adri,
Como a vida dessa mulher é cheia de histórias emocionantes. Parece filme de ficção, não?! Adorei o post e curiosa pela parte 2. Já separei a caixa de lenços.
Beijos
Dia das mães: sabores de Heloísa Schurmann - #comidaboamudatudo
maio 6, 2016 @ 7:08 pm
[…] Adriana Engelmeyer – Materniart […]
maio 7, 2016 @ 2:18 am
Quanta história ela tem pra contar né Adri? E achei o máximo você fazer perguntas que eu nunca faria… Imagina, não vivi no mar e nem me passava pela cabeça situações como “refugiados” ou uma pessoa querida escondida no barco… Poxa… E a natureza então? Fico pensando numa onda gigante, em ventos furiosos e eu lá tentando manter a calma. Na hora, acho que até conseguiria (com todo o preparo necessário, claro), mas penso que no dia seguinte eu iria chorar e pedir a minha mãe!!!! kkkk… Heloísa, a cada resposta, de cada entrevista, só me mostra como podemos ser um mulher forte, guerreira, centrada… Todas nós podemos, e ela é um baita exemplo!!!
Parabéns pelas perguntas Dri! Beijos