Como conciliar trabalho e amamentação
Como conciliar trabalho e amamentação

Ana Schoriza, doula, consultora do sono materno-infantil, advogada de formação.
O retorno ao trabalho, após o nascimento do bebê, é um dos assuntos que mais angustia as mamães, principalmente as de primeira viagem. Muitas preocupações surgem, dando lugar a questionamentos do tipo: com quem ficará o meu bebê? Será que consigo conciliar o aleitamento materno e o trabalho fora de casa? Será que devo introduzir mamadeira? Será que já dou papinha? Será que meu bebê sentirá a minha falta? Será que dou conta de cuidar dos afazeres da casa e do bebê ao mesmo tempo? Será que peço demissão? Será que estou na carreira certa? Diante de tantas neuras, a cabeça da mulher, elevada agora ao status de “super mãe”, entra em parafusos.
Considerando que passei por muitas destas dúvidas na primeira e segunda gestação, resolvi compartilhar informações e alguma experiência prática pessoal, especialmente sobre o tema da manutenção da amamentação e o retorno ao trabalho, sendo que posteriormente podemos conversar sobre outros assuntos, com a ajuda de vocês. Então, sem mais delongas, vamos ao tema!
Sobre minha vivência pessoal com a amamentação e o trabalho, depois da minha primeira gestação, retornei ao meu posto de advogada, deixando minha filha com uma babá. Achei que não era o momento de colocar em uma escola ainda. Por sorte que trabalhava em uma empresa que já tinha aderido aos 6 (seis) meses de licença-maternidade, garantindo o aleitamento exclusivo nos primeiros meses da Helô.
Mas, em relação ao tempo de licença-maternidade, bem sei que esta não é a realidade da maioria das mães brasileiras. Há pouco tempo participei de um Simpósio Internacional sobre Parto, no qual um médico palestrante do Canadá, árduo defensor da amamentação, Jack Newman, falou claramente que um país sério não concede licença-maternidade menor do que a de 6 (seis) meses à mulher. Mas esta é a nossa realidade.
Embora, recentemente, tenha surgido uma lei que permite que as empresas estendam o período da licença-maternidade para 6 (seis) meses em troca de benefícios fiscais (o que deve ser amplamente divulgado e incentivado), como a adesão é optativa, poucas empresas adotam a nova norma.
No Brasil, na verdade, prevalece a licença-maternidade de 120 dias (de acordo com o art. 392, Consolidação das Leis Trabalhistas), período bem menor do que os 6 (seis) meses recomendados pela Organização Mundial de Saúde de aleitamento materno exclusivo. Disto, já surge a primeira dificuldade (vencível, na maioria dos casos, digamos) à conciliação da amamentação com o trabalho fora de casa. Para complicar, há, também, aquelas mães autônomas ou empresárias que, se não trabalharem, não ganham o seu próprio sustento, o que reduz ainda mais o período com o bebê.
Assim, o que se vê são mães desesperada em introduzir a mamadeira e papinhas atabalhoadamente, com medo do bebê não se alimentar após o seu retorno ao trabalho, o que na maioria das vezes gera o desmame precoce. A fim de evitar que isso ocorra, trago aqui algumas dicas de como conciliar a amamentação e o trabalho. Mas longe de pretender esgotar o assunto ou de me julgar perfeita em tudo que fiz.
Considero que o primeiro passo é a conscientização da importância do leite materno, como o único alimento que contém anticorpos para a imunidade do bebê a doenças, sem falar no gasto calórico pela mãe, troca de afeto entre mãe e filho, completude em nutrientes e de água em quantidade suficiente ao bebê. Alerto para o fato de que, por mais semelhantes que tente ser uma fórmula, não passa perto do que traz o leite materno de benefícios ao bebê, podendo causar alergias e obesidade sobretudo.
Em relação ao uso da mamadeira no retorno ao trabalho, alerto que pode ser um grande vilão do desmame precoce. Lembre-se que, a alternativa mais recomendada é o uso de copinhos pelos cuidadores que ficarão com a criança. Tem vários vídeos, textos e especialmente profissionais consultoras em aleitamento materno que podem auxiliar no uso do copinho (e especialmente orientar sobre boa pega, fissuras, formas de amamentar), de melhor aceitação para o bebê. Na época do nascimento da minha primeira filha, nem sabia que existiam consultoras em aleitamento materno que fazem consultas na residência da recém-mamãe. Fiquei sofrendo por muito tempo com a pega incorreta da minha bebê que me machucava.
Voltando ao trabalho em empresas, vale a pena verificar se há acordos ou convenção coletivas da categoria com cláusulas específicas que protegem as mães que estão em processo de amamentação. Na empresa em que eu trabalhava, a mãe que aleitasse o bebê poderia deixar o trabalho 2 (duas) horas mais cedo até um ano de idade.
Mas, se não tiver este tipo de previsão no seu local de trabalho, a Consolidação da Leis Trabalhistas dá o direito, a todas as mães que aleitem seus o bebê de até 6 meses de vida, a dois descansos de 30 minutos por dia, podendo negociar de saírem do trabalho 1 (uma) hora mais cedo.
Durante o trabalho, é aconselhável realizar a ordenha do leite materno. Quanto a minha experiência pessoal, na hora do almoço, eu levava uma bombinha elétrica para a retirada do leite materno, que deixava para minha bebê tomar no dia seguinte. Por um ano, fui eu para o trabalho com minha bombinha e a caixinha de isopor, enfrentando a cara feia de algumas pessoas, filhos de chocadeiras.
Desta forma, verifiquem a possiblidade de levar a bomba elétrica ao trabalho e retirar leite materno na hora do almoço, se possível, acondicionando em uma geladeira.
Para quem reside próximo ao trabalho, é possível negociar com a chefia a extensão do horário de almoço para 2 (duas) horas, por exemplo (art. 71, da Consolidação da Leis Trabalhistas). Assim, a mamãe pode se dirigir à sua residência para amamentar seu bebê e dar-lhe uma pouco mais de carinho. Há quem tenha parentes que se dispõem a deslocarem o bebê da residência até o trabalho da mãe no horário do almoço para ser amamentado, e, se tiver um intervalo de 2 (duas) horas, facilita o momento.
Situação peculiares existem sim, mas não devem ser a regra. Com relação aos meus trigêmeos prematuros, segui firme com aleitamento materno em rezevamento, mas até os 8 meses apenas. Mas o melhor é que seja feito até 2 anos no mínimo. Devido ao caso de trigêmeos ser de alta demanda, com o tempo, tive que complementar o materno com fórmula, pois chegou o momento em cada um já tomava 150 mls de leite em cada mamada. Eu tinha muito leite de início – os bebês chegaram a tomar apenas 2 mls de leite em certa época na internação pós-parto, e aproveitei para fazer um bom estoque no banco de leite do hospital. Quando os bebês tiveram alta, levei meu próprio leite para casa pasteurizado. Em casa, enquanto dormiam, eu tirava na bomba elétrica o leite para oferecer ao bebê que não tomaria leite direto do seio. Além de congelar também, em potes de vidro ou saquinhos especiais, por 15 dias, e com fitas adesivas com data.
Para descongelar, basta fazer em banho-maria. Ferve a água, desliga, colocar o vidro com leite dentro da água até descongelar em minutos. O leite cru pode ser mantido na geladeira por até 12 horas, segundo padrão de bancos de leite. O leite aquecido, se sobrar, deve ser descartado. Em temperatura ambiente, dura apenas 2 (duas) horas.
Sobre meu retorno ao trabalho após o término da minha licença-maternidade dos trigêmeos, foi catastrófico. Não aguentei nem um mês (o que é uma outra longa história). Preferi amamentar sem amarras a voltar a um lugar que já não era mais meu. E assim espero ter trazido alguma novidade e incentivo às vocês. Lembrem, o leite materno é o melhor alimento para o seu bebê. Em caso de qualquer dificuldade, procure antes um profissional para lhe orientar.

