Saúde Mental na Infância
Saúde mental na Infância

(Por Dra Raquel Del Monde, psiquiatra infantil)
Precisamos falar sobre saúde mental infantil.
Eu sei, não é o tipo de assunto que surge facilmente nos encontros com as amigas, não está entre os mais curtidos nas redes sociais. Está mais para algo que causa desconforto, estranheza, mal estar… Nem gostamos muito de pensar nisso. Criança tem febre, virose, dor de ouvido, essas coisas. Mas problemas de saúde mental? Como assim?
O estigma vem de longe, de séculos atrás. A imagem de doença mental que trazemos dentro de nós é carregada, desperta sentimentos que nem gostamos de admitir, de aversão e medo. Geralmente não sabemos sequer como agir com alguém que se comporta de modo diferente do que convencionamos chamar de normal.
Então um dia, uma família se vê às voltas com um filho que não se encaixa no padrão esperado. Uma família comum – como a minha, como a sua – que nem imaginava que isso pudesse acontecer. Um redemoinho de sofrimento, angústia e culpa. Muita culpa. Dedos apontados, palpites de todo lado, julgamento alheio, olhares tortos, exclusão. Sensação de impotência, medo do futuro.
Por tudo isso é que precisamos falar de saúde mental de crianças e adolescentes, acabar com esse tabu. O tempo tem mostrado que o silêncio cobra um preço alto demais: perpetua a ignorância, alimenta o preconceito, obstrui ainda mais a busca pela ajuda tão necessária.

Por tudo isso é que precisamos falar de saúde mental de crianças e adolescentes, acabar com esse tabu. O tempo tem mostrado que o silêncio cobra um preço alto demais: perpetua a ignorância, alimenta o preconceito, obstrui ainda mais a busca pela ajuda tão necessária.
Problemas neuropsiquiátricos são reais – tão reais como asma, gastrite, diabete, problemas da tireóide. Também são bem mais frequentes que se pensa, atingindo cerca de 20% das nossas crianças e adolescentes. A maior parte deles tem caráter genético hereditário, podem se manifestar em diversas fases da vida e podem persistir na vida adulta. Porém, com exceção de algumas síndromes genéticas que apresentam dismorfismos (ou seja, variações físicas na face ou no corpo), as crianças afetadas têm aparência perfeitamente normal. Ou seja, são problemas “invisíveis”. A frase “Nossa, mas não parece que ele tem algum problema!” (às vezes dita num tom meio desconfiado) é ouvida com bastante frequência pelos pais dessas crianças
Além de invisíveis, geralmente não são detectados em exames de sangue, RX, tomografias ou eletros. Eles se manifestam clinicamente como atraso ou falha no desenvolvimento de habilidades motoras, de comunicação e aprendizagem, ou ainda como comportamentos atípicos e dificuldades emocionais. Algumas vezes podem ser acompanhados por sinais orgânicos ou convulsões, mas na maior parte dos casos, as alterações de comportamento e desenvolvimento são os únicos sinais.
Para complicar um pouco mais, identificar um problema de saúde mental não é tão simples como identificar uma hepatite, por exemplo, uma condição que, ou você tem, ou não tem. Não é na base do tudo ou nada, oito ou oitenta, preto ou branco. O funcionamento mental do ser humano é muito complexo para ser avaliado de forma tão simples, as nuances são praticamente infinitas.
Vamos pensar em uma característica comum do comportamento humano: ansiedade. Todos nós já tivemos momentos de ansiedade na vida, é um traço evolutivo da nossa espécie e tem até uma função nas nossas vidas, nos ajuda em várias ocasiões. Todo mundo sabe que existem pessoas menos ansiosas e mais ansiosas. Agora vamos imaginar uma linha que mostrasse do mínimo ao máximo de ansiedade que uma pessoa possa ter. Num extremo vamos encontrar as pessoas mais zen do planeta, depois vamos passar pelos mais estressadinhos, aí em algum ponto dessa linha passamos a encontrar pessoas cujas vidas são prejudicadas pela ansiedade (que sofrem com situações do cotidiano, veem sua vida social em frangalhos, chegam a perder oportunidades de estudo, emprego) até chegar a uma Síndrome do Pânico. Ou seja, em algum ponto dessa linha, passamos a identificar um Transtorno de Ansiedade.
Isso acontece com outras condições: de um comportamento sistemático ao obsessivo-compulsivo, de ser “bravinho” a uma desregulação do humor, de ser distraído ao deficit de atenção e por aí vai. O ser humano transita nessa linha de limites não muito nítidos. Então, identificar o ponto em que algo passa a ser um Transtorno e iniciar um tratamento o mais precocemente possível é muito importante, porque as consequências podem ser devastadoras. Os relacionamentos familiares e sociais podem ser gravemente afetados, todo o processo de aprendizagem e as perspectivas profissionais podem ser comprometidos, além de deixar as crianças e adolescentes mais vulneráveis a acidentes, uso de drogas ilícitas, automutilação e até mesmo suicídio – o mais trágico e temido desfecho na área da saúde mental.
Profissionais precisam estar muito bem preparados para realizar a avaliação, chegar ao diagnóstico e instituir o tratamento adequado. Muitos fatores precisam ser levados em conta, não só os biológicos e neuropsiquiátricos propriamente ditos, mas também todo o contexto que envolve a criança (sócio-econômico, cultural, educacional, religioso). Infelizmente, a formação profissional e os serviços existentes no nosso país ainda deixam a desejar, e em muitos casos a família passa por uma verdadeira saga até encontrar o atendimento que necessita.
E, apesar de todo avanço do conhecimento e da facilidade com que ele pode ser compartilhado, o estigma ainda persiste na nossa sociedade. Posicionamentos como aquele que originou o mito das mães geladeiras (as quais supostamente causariam o autismo de seus filhos) estão fora de cena há muito tempo, mas comentários que associam as dificuldades da criança a mimo, falta de estímulos, de afetividade ou de limites – ou seja, aos “erros” da família como principal fator causal – são comuns e recorrentes, até mesmo vindo de profissionais da saúde e da educação (sim, a maior parte das escolas e dos professores não sabe lidar com essas questões!). Também não faltam opiniões de pessoas que, baseadas apenas em experiências pessoais e achismos, atribuem qualquer problema à dinâmica da sociedade moderna ou à perversidade da indústria farmacêutica, sem as credenciais para uma análise mais aprofundada da questão.
Não há dúvida de que o assunto é complexo demais para ser esgotado em poucas linhas. Mas trazer essa discussão à tona já é um bom começo. Assim, talvez, quando se falar de crianças e adolescentes com TDAH, depressão, ansiedade, TOC, transtornos de aprendizagem, autismo ou outro problema, o mal estar possa ser substituído por respeito e solidariedade.

